
Depois de Ordenado Padre na Sé de Santarém, no passado dia 11 de janeiro, André Henriques, agora Padre, celebrou neste sábado a sua Missa Nova, em Rio Maior.
Uma Igreja Paroquial completamente cheia para assistir à sua primeira vez perante a sua Comunidade de berço, Rio Maior, com a presença do Bispo de Santarém D. José Traquina.
Após esta celebração houve lugar ao Convívio no Centro Pastoral, que também se tornou pequeno para acolher tantos que quiseram participar neste momento.

Região de Rio Maior (RRM) foi ao encontro de André Henriques (AH) e quis ouvir o seu testemunho, os seus medos, os seus projetos… numa entrevista conduzida por Filipa Gaspar.
Entrevista a André Henriques, de Rio Maior e Ordenado Padre recentemente
“E porque não eu?”
RRM: Quando é que percebeste, pela primeira vez, que a tua vida podia passar pelo sacerdócio? Onde estavas? O que sentiste nesse momento?
AH: Um grande momento, que foi muito importante para eu colocar a questão, foi talvez no dia em que encontrei o Padre Diogo doente. Estava no centro pastoral e fui a casa do Padre Diogo [António Diogo foi Pároco de Rio Maior].
O que senti nesse momento foi uma coisa muito simples; eu encontrei este Padre doente, neste momento estamos sem Padres, e então comecei a colocar a questão, “E porque não eu?, Porque é que eu não posso também ser Padre? Porque é que agora, nesta altura, em Rio Maior vêm vários Padres aqui ajudar?” e então foi esta presença de vários Padres, grandes Padres, sacrificados mas com grande vontade de servir. Foi, assim, a primeira vez que eu comecei, seriamente, a questionar se a minha vida não podia passar por ser Padre. Neste horizonte, e porque é que não?; “Porque é que não pensas seriamente em ser Padre?, Porquê?, E porque não?”.
Eu tinha bons exemplos e então comecei a pensar, a partir daí mais seriamente, que Nosso Senhor me poderia estar a chamar, com a ausência do Padre Diogo, com a doença do Padre Diogo; mas foi de facto desta tragédia, desta dificuldade do Padre Diogo, que então eu comecei a questionar-me seriamente.

“…tomar decisões sérias e avançar com elas…”
RRM: Num tempo em que muitos jovens hesitam em assumir compromissos duradouros, o que te levou a dizer “sim” a uma escolha para toda a vida?
AH: Eu, durante a minha adolescência, sempre tive como certo que não queria coisas tipo pastilha elástica, ou seja, de mascar uma pastilha e deitá-la fora passado vinte minutos, meia hora, uma hora. Foi por, se calhar, ter isso muito certo; que nós fomos feitos para coisas definitivas, que a nossa vida também tem que passar por tomar decisões sérias e avançar com elas, e assumi-las, por saber que a nossa vida se faz destas grandes decisões.
Eu sei que os jovens hesitam, mas sim, eu sei que quero para a minha vida isto, e sei que conto com a ajuda de Deus para esta escolha, para o resto da minha vida. Não estou a dizer que é fácil, mas que é um compromisso para a minha vida; e a nossa vida também é feita destas decisões. Eu quero levá-la muito a peito e levá-la para o resto da minha vida; ser Padre à maneira de Jesus, e ser um Padre feliz. Sim, muita gente hesita, mas sempre com a esperança de que é possível; e nós temos grandes Padres e o Padre Diogo e o Frei Paolo são grandes referências de uma escolha que foi para o resto da vida; assim, também o quero para a minha.

RRM: Houve alguma crise de fé ao longo do caminho? Algum momento em que pensaste desistir?
AH: Eu creio que durante todo o tempo de caminho, às vezes, vai aparecendo. Foi-me aparecendo alguns momentos em que voltei a questionar, seriamente, se era no seminário que Nosso Senhor me chamava, isso é óbvio; acho que todos nós passamos por algum momento de “É isto ou não que tu queres para a tua vida?”.
Sim, isso aparece, mas estes momentos de desistência que nos surgem, são momentos para nós purificarmos a nossa relação com Jesus, de nós falarmos com pessoas, com colegas nossos que andam no seminário, e falarmos com os Padres, que têm esta responsabilidade de nos acompanhar no seminário, que me foram dados e que são mestres de caminho, e que têm este dever de me acompanhar e de me ajudar sempre. E pronto, em nenhum momento, depois, este pensar desistir se concretizou numa saída! Obviamente, no seminário é um tempo longo, foram 7 anos, em que há muita coisa que nos vai passando pela cabeça; mas o importante é sermos verdadeiros e querermos fazer este caminho a sério, e pensarmos que isto é para o bem da Igreja, e para Nosso Senhor, e isso alimenta-nos, e isso dá nos força.
Claramente que estes momentos de dificuldade são momentos de purificação, ou seja, depois de um momento de dificuldade e de perseverarmos na dificuldade, nós saímos vitoriosos. Claramente que, se uma tristeza nos acompanhar durante muito tempo, se calhar teríamos que refletir melhor sobre ela, no tempo de seminário, no tempo de discernimento. Mas como essa tristeza não foi grande, não foi durante muito tempo, fui continuando, e fui perguntando sempre a Nosso Senhor o que é que ele queria de mim.

As semelhanças e as diferenças
RRM: O que mais te surpreendeu positivamente ao longo do caminho de formação até à ordenação? E negativamente?
AH: O que mais me surpreendeu, positivamente, foi sem dúvida perceber que os outros seminaristas, com quem vivia, com quem fazia caminho de discernimento, com quem eu percorria esta vida de seminário, eram pessoas normais. Tinham histórias, riam-se, choravam, tinham vida, partilhavam a vida, tinham dificuldades, tinham alegrias, e isso foi bom, perceber que um seminário é feito de homens, de rapazes, com semelhanças, com diferenças, mas que todos nós estamos lá para o mesmo.
O que me surpreendeu mais negativamente, talvez seja, ás vezes, a ausência de alguns momentos importantes da família. No tempo de seminário, por ser em Lisboa, houve alguns momentos, nestes últimos 7 anos, que não consegui viver com a minha família; mas isso não significa que seja uma tristeza, significa que o caminho é assim, e pronto fomos chamados a estar no seminário. Aqueles também me foram dados como família.

RRM: Como reage a tua geração (os teus amigos de escola, da vida, etc) quando dizes que vais ser Padre? Há curiosidade, distância, admiração, estranheza…?
AH: Eu acho que é tudo um pouco. Eu creio que os meus amigos, acho que foram reagindo bem! Eu saí de Rio Maior, saí para o seminário em 2018, e claramente que há pessoas com quem eu hoje ainda falo, todas as semanas, às vezes todos os dias, depende, mas acho que a reação foi boa; os verdadeiros amigos mantêm-se não é?! E pronto, depois há outros que também nos fomos distanciando. Não é sinal de que agora já não nos damos, que nos zangamos, significa é que nas amizades, a distância as foi encurtando, mas graças a Deus os grandes amigos permanecem!
Sim há curiosidade, há gente que me pergunta como é que está a correr, há outros que não me perguntam, e que também não é preciso perguntar. A distância, sou sincero que nunca senti que fizeram aquela barreira, a de “Tu agora vais ser Padre…”. A estranheza, eu acho que no início alguns ficaram muito surpreendidos, outros ficaram só surpreendidos, outros não ficaram nada surpreendidos, porque há amigos com quem eu fui partilhando mais estes momentos de fé, da vida interior, e há outros com quem fui partilhando menos. Alguns duvidaram, houve alguns que estranharam, mas outros também ficaram felizes, e ficaram admirados; outros ainda disseram “Olha eu sempre tive a certeza que tu irias ser, que ias para o seminário e que irias ser Padre!”.

RRM: E a tua família, a mãe, o pai, o que dizem?
AH: A minha família acho que teve, toda ela, uma reação diferente! Uns ficaram muito felizes, outros ficaram assim mais admirados, outros esperavam de mim outra coisa, mas creio que essas são as reações normais.
Eu creio que a grande dificuldade para os meus pais foi precisamente eu não ir estudar para a universidade, ou seja, eu estudei na faculdade de teologia, mas creio que para eles, eles queriam que eu fosse para a universidade antes de entrar no seminário, que fosse tirar um curso antes. Essa foi assim a grande questão que tive com os meus pais, mas creio que eles foram fazendo um caminho também, no tempo de seminário, e também acho que foram sentindo algum orgulho, e alguma curiosidade, e admiração. Acho que às vezes para a família estranha-se um bocadinho, mas depois há uma felicidade que vem.

RRM: Que medos levas contigo para o ministério sacerdotal, e como pensas aprender a lidar com eles?
AH: Eu creio que no início de Padre os medos estão pouco presentes, por isso agora também não sei dizer assim muitos medos. Sei dizer que os medos que tenho, são medos que são para andar para a frente, que não me prendem! Claramente que a solidão é sempre algo que nos questiona; como é que tu vais lidar com a solidão um dia?, Como é que vais pensar que um dia estás numa casa sozinho?. Porque nós, também no seminário, vivemos tanto tempo com tanta gente, que depois quando saímos é difícil; esta saída do seminário, às vezes para alguns Padres, pode ser traumatizante, mas graças a Deus, o importante é que estes medos sejam partilhados, e sejam partilhados com um diretor espiritual que nos acompanha, que nos conhece, e nos ajuda a viver com esses medos.
RRM: Que tipo de Padre queres ser: Mais silencioso e contemplativo, ou mais presente e interventivo na vida das pessoas e na Comunidade em geral?
AH: Eu creio que o Padre que eu gostaria de ser é um equilíbrio! Creio que é preciso momentos de silêncio e de contemplação, e depois é preciso momentos de presença e de intervenção grandes.
Eu creio que um Padre precisa de rezar, que precisa de se focar em Jesus, e precisa de sentir a vida da Igreja, e para isso é preciso silêncio, e é preciso encontrar tempo de intimidade com Deus. Por outro lado, o Padre diocesano, que é aquele que eu sou, é um Padre que está diretamente ligado à vida da diocese, das paróquias, das pessoas, e por isso, a sua presença tem que ser a de alguém que quer levar o leme, de quem quer conduzir, de quem quer amar, de quem quer ser conduzido, de quem quer andar por aí a dizer às pessoas “Vamos a isso, vamos andar!”, “Vamos a isso, vamos caminhar!”, e por isso creio que é o intermédio. Creio que é preciso um equilíbrio entre o silêncio e a presença, e por isso, acho que este equilíbrio é o segredo; não sei se já podia dizer isto, sou Padre à meia dúzia de dias, mas creio que para alguém que abraça esta vocação, é preciso esses dois.

RRM: Há alguma figura (um outro Padre, um leigo, um santo ou alguém fora da Igreja) que tenha marcado decisivamente a tua vocação? Porquê?
AH: Um Padre, eu diria: o Padre Diogo; o Padre Pedro Dionísio; o Padre Miguel Ângelo. Foram três Padres que estiveram muito presentes antes do seminário, e os últimos dois, muito presentes também na vida de seminário; porque acho que foram, assim, grandes exemplos de sacerdócio que eu tive. Depois também o Frei Paolo, sem dúvida, na minha adolescência, para me ajudar num caminho de humildade.
Um santo, por curiosidade, eu diria S. João Paulo II. Este desejo da entrega: aquele homem que era Papa e até ao final, até ao final, quis dar a bênção naquela varanda do Vaticano; alguém que, verdadeiramente, sabia que a sua missão era até ao final, até não poder mais. Dar, dar, dar, até ir para o céu.
O papel ativo da Igreja no Mundo
RRM: Que papel é que a Igreja pode e deve ter hoje, num mundo marcado pela velocidade, pelas redes sociais, pela guerra, por tantas polarizações e um certo retrocesso naquilo que pensávamos que estava adquirido?
AH: Eu penso que a Igreja precisa de ter um papel, e precisa de ter um papel ativo!
Na verdade, a Igreja é o conjunto dos batizados, por isso, quando o Papa fala, o Papa fala em nome deste povo de batizados, e por isso, a Igreja como instituição tem um dever de ter um papel de intervenção na vida do mundo! Falar sobre as coisas, sobre aquilo que acontece, sobre aquilo que não acontece, claro, porque a Igreja não se pode calar. A Igreja não é um conjunto de burrinhos que andamos por aqui, não é isso, a Igreja somos nós. E nós somos pessoas com opinião, e somos pessoas que queremos falar, e que temos o dever, porque andamos atrás de Jesus, e como tal, Jesus, também na altura, falou aos seus e ajudou a caminhar, e é isso que a Igreja hoje tem que ser no mundo.

RRM: O que te dá mais esperança quando olhas para o presente e para o futuro da Igreja? Porquê?
AH: O que me dá mais esperança são as pessoas! Há coisas muito bonitas que acontecem na Igreja, porque temos pessoas muito envolvidas nas nossas comunidades e porque, com padres, sem padres, com leigos, sem leigos, com religiosos, sem religiosos, há coisas muito bonitas que acontecem à nossa frente!
Isso é o que me dá mais esperança, perceber que as pessoas se motivam, motivam os outros, querem motivação para elas próprias, e isso é o mais bonito. Porque aqui não há uns melhores do que outros, mas há uma Igreja que quer caminhar, e por isso há um conjunto de pessoas, os cristãos, os católicos. Isso é o que me dá mais esperança: É querer caminhar com essas pessoas, e perceber que elas são uma fonte de esperança, para o hoje da Igreja e para o amanhã.
RRM: O que dirias a um jovem que possa sentir uma inquietação vocacional, mas tenha receio de escutar essa interrogação até ao fim?
AH: Eu diria, a um jovem, que é preciso às vezes fazer perguntas; às vezes, duras para a nossa própria vida! O que Deus quer de nós?, O que Deus quer de nós?. Isto é uma pergunta que não é só para os jovens, é para todos, mas para aqueles que sentem uma inquietação, esta é a pergunta. E às vezes para estes jovens, que, muito secretamente, muito sozinhos, fazem estas perguntas; nós precisamos de ser esta presença que os acolhe. Mais do que dizer a um jovem, é acolher esse jovem, é esse jovem perceber que não faz esse caminho sozinho, que “Eu estou aqui!”, e que “Tu podes partilhar comigo a tua vida” porque “Eu quero o teu bem”, “eu quero o bem da Igreja”, por isso aquilo que eu lhe vou dar é o meu acolhimento, é dizer: “eu estou aqui e posso te ajudar!”, e depois é ir escutando, é aos poucos ir dizendo “olha, pergunta a Deus o que ele quer de ti”, ou ir indiretamente perceber, se calhar quais é que são os seus primeiros medos.

RRM: Com o dia da tua ordenação, que mensagem simples gostarias de deixar? Que palavras gostarias que ficassem no coração das pessoas?
AH: A mensagem simples é esta: “Eu sou Padre para as pessoas!” e, por isso, as pessoas podem esperar de mim este Padre, que ama, que quer cuidar, que quer ajudar a fazer crescer a igreja, que quer construir a igreja! Isto é aquilo que quero, esta é uma mensagem simples.
As palavras que gostaria que ficassem no coração das pessoas é “Estamos cá”, e estou aqui para aquilo que a Igreja precisar.

RRM: Como vai ser a tua vida a partir de agora? Já sabes para onde vais, fazer o quê…?
AH: Esta é a pergunta do milhão! Agora a minha vida, como é que vai ser…?! Agora vou esperar, vamos esperar, que o senhor Bispo me diga para onde é que eu vou.
Eu até agora estive a ajudar em São João da Ribeira, Marmeleira, Azambujeira, Almoster, e tive também com a pastoral do ensino superior, e com os acólitos. Fomos caminhando, mas a partir de agora não sei.
No dia da minha ordenação, eu prometi obediência ao nosso bispo, D. José e, por isso, estou muito livre para aquilo que ele quiser; eu estarei cá, com os meus limites, mas eu estou aqui. E pronto, talvez brevemente saber-se-á para onde é que eu vou, onde é que vou estar.

[Imagens: Filipa Gaspar, RRM]



